Confabulando Ilusões

O portal da alma, a voz do coração.

Em nome de Var

em 07/02/2011

“Sempre que observamos o comportamento juvenil, paramos para filosofar “O que há em suas mentes?”. E quando estão apaixonados? O que os leva a tomar atitudes impensáveis: amor ou impulso? Ou os dois?

Nunca sabemos, a não ser aquele que já se apaixonou um dia…

E eu já me apaixonei. Oh, todas as tardes pareciam primavera! E todas as noites pareciam mais estreladas e mais iluminadas! Tudo era tão belo e tudo me fazia tão feliz!

Maravilhosamente belo.

Como eu o conheci?

Mas isso não importa. É bom que você aprenda que a forma como conhecemos as pessoas não definem o futuro do que pode acontecer com o que for nascer ali. Você pode conhecer pessoas em situações favoráveis e nunca mais falar com elas. Ou conhecer pessoas brigando e se tornarem amigos inseparáveis.

A pergunta correta é: “Como aconteceu tudo?” e eu não sei lhe explicar.

E largue o whiskey, apesar de já ter idade, não vou embebedá-la! Como é teimosa… tudo bem, eu tentarei explicar da melhor forma.

Eu era muito nova, estava estudando ainda e gostava de sair e passear pelas praças, ir à floresta e bosques do lado da cidade, como qualquer jovem daquela época. E como qualquer jovem, deixei de fazer um trabalho escolar para passear. Por causa disso, passei a madrugada terminando meu trabalho. Acordei atrasada e corri até o colégio, mas não consegui entrar.

Revoltada comigo mesma pela nota vermelha que certamente iria tirar, fui até a praça mais próxima sentar e ouvir o canto dos pássaros perto das amoreiras. Então eu vi, logo em minha frente, aquele belo rapaz. Curioso, era festival de Beltane… Meus olhos se encheram dele, foi encanto à primeira vista. Era alto, cabelos lisos com cachos nas pontas, que dançavam ao sabor da brisa fresca. As maçãs do rosto, rosadas e aveludadas como a polpa e a casca de um pêssego. Os lábios eram apaixonantes, davam-lhe a impressão de ter saboreado uma das amoras. Aquele vermelho… Jamais tinha visto alguém tão belo quanto ele.

Eu que nunca havia me interessado por alguém, acabava por me surpreender. Ele deve ter notado minha face corada, porque deu um largo sorriso. E olhou para mim. Pensei em desviar o olhar, mas ele era hipnotizante. E aqueles olhos cor de esmeralda eram mais instigantes ainda. Não desviei. Ele sorriu novamente e voltou para seu desenho.

Estava envergonhada e os tiques nervosos começaram! Veja só, meu medo era de parecer patética para ele! Ha ha ha!

Mas é claro que falei com ele!

Lembro de nossa primeira conversa, como se tivesse sido ontem…

– Não devia estar na colégio?

– Err… ãh, bem… é que… é-é, devia.

– E porque não está?

– Acordei a-atrasada.

– Ha ha ha! Então somos dois!

– É, parece que sim, ha ha.

– Vejo que não conseguiu entregar sua tarefa. Posso ver?

– Claro, claro.

– Hum… Não gosto das aulas de Matemática… Esse professor, Ronei, é bruto para ensinar. Não vejo beleza nos números. Eles são tão exatos, tão perfeitos… e não notam que a verdadeira beleza está em esculpir o imperfeito. Não é estranho?

– Sim… muito estranho. Mas gosto das aulas de Química. Cada elemento é único, não existe outro igual. E cada elemento, junto com outro elemento único, forma algo novo, diferente. Criações… para mim, é como se fosse magia. Eu gosto da magia. E gosto das inovações.

E ele sorria, como um menino maravilhado por ter descoberto uma passagem secreta em algum bosque.

– Como é o seu nome, pequena alquimista?

– Vannis… e você?

– E eu o quê?

– Como é o seu nome, oras.

– É Arthur.

– Gosto de Arthur. É celta e eu gosto de tudo o que é celta! “Nobre, generoso”… nome de rei. É muito bonito.

– Também gosto do seu… “Florescer do Amanhecer” parece um nome mágico.Você tem nome de elfos. E é bela como uma elfa. Por acaso está tentando me encantar, Nis?

Sorri tão sincero, que fiz ele rir.  A conversa foi tão proveitosa que mal notamos que o sol do meio-dia ardia em nossas cabeças. Voltei para casa sorridente e tinha a certeza de que o encontraria. Apenas um colégio tinha um professor com um nome celta “Ronei” e era o meu, ele certamente era matriculado lá. Eu sabia que era o início de algo muito grande e estava ansiosa por descobrir.

O quê? Não, não… S equer o tinha visto antes, o que me era estranho. O colégio era dividido, garotas nunca encontravam os garotos durante as aulas. Podiam conversar depois, sair juntos, ter amizade desde que as visitas em casa não fossem frequentes e não se vissem muitas vezes. Fora isto, não havia tantas proibições.

No dia seguinte, antes que a aula começasse, fui até a sala do professor Ronei entregar a tarefa. E lá encontro Arthur com a pior das expressões! Ha ha ha, Ronei devia estar castigando-o por ter faltado em sua aula. As paredes do colégio sufocavam Arthur! E Ronei, era um carrasco!

Ronei aceitou minha tarefa com a condição de que eu fizesse outra ainda mais difícil de forma que demonstrasse que valeu a pena ele aceitar. Aceitei a nova tarefa, não tinha outra saída.

– Sim senhor. É uma tarefa sobre Polígonos, dessa vez?

– Não, Srtaª Vannis. Esta é uma tarefa muito mais complicada. Quero que ajude o Senhor Arthur com as tarefas matemáticas, ele não está se saindo muito bem nos exames e não quero mais desculpas. Ajude-o e prove que é uma srtaª que merece uma segunda chance em entregar a tarefa fora do dia. E terá um ponto a menos por isso, que não se repita mais. Todas as semanas, você terá uma prova, Senhor Arthur e deverá acertar 70% no mínimo todas as vezes, caso contrário, irei reprová-lo. Estamos entendidos, senhores?

– Sim, senhor.

Ronei era odiado… ah se era. Eu nunca tive problemas com professores, nunca dava problemas nas aulas deles e sempre fazia as tarefas, isso fazia nascer uma certa simpatia entre ambos. Com o tempo, fui desenvolvendo amizade com eles.

Claro, fique à vontade para pegar mais whiskey.

E todos os dias, eu ajudava Arthur. Passávamos as tardes juntos estudando e depois, passeávamos no parque. Até o estudo se tornou divertido. Durante todo o ano até ali foi assim e Arthur passou com louvor nas provas. Compramos alguns doces e fizemos suco de maçã para comemorar nosso feito e…

Sim, comemoramos com suco, não é como hoje em dia que crianças de 10 anos já entendem tanto de rum quanto um velho! Ora essa…

E fomos até os muros altos da cidade ver a vista. A tarde cheirava a rosas e a brisa era fresca. Era uma tarde linda e era dia de Var. Você sabe, um juramento feito na presença de Var, jamais poderia ser quebrado.

Ele me contou, ao pé do ouvido, num sussurro que só o vento sabia fazer: “Estou apaixonado por você”. Foi mágico, pois ele bem sabia que eu também estava. Fizemos nossos votos e ficamos juntos, então, em segredo.

Eu aprendia as coisas do mundo dele e ele, aprendia as coisas do meu. Aprendi a invocar os espíritos celtas e a tocar violino. E cantava com eles. Ele aprendeu a cantar os agradecimentos élficos, a canção dos bardos e a tocar harpa. Aprendíamos muito um com o outro, todos os dias. Enquanto nosso amor, crescia…

Você bem sabe que sempre gostei de dançar! E já era época de Eostre! Ah, os festivais de Eostre! A Deusa da Fertilidade e do Renascimento! A primavera é um de seus símbolos. Chamei Arthur para ir comigo. Não contei ao meu pai quem ele significava para mim, claro. Mas ele foi. E nos divertimos muito, como tudo que fazíamos era divertido!

No meio do festival, chamei ele para conhecer meu lugar preferido da floresta…

– Venha, Arthur!

– Calma, Nis, você até parece uma lebre!

– Ha ha ha! Que curioso! Muito obrigada!

– Qual a surpresa?

– Hoje, é Festival de Eostre e a lebre, é um de seus símbolos.

– Pensei que fosse a primavera!

– Ora essa, também! E venha logo!

– Menina ágil! Ha ha ha!

– Chegamos! Aqui é meu santuário. Desde criança, venho aqui e fico brincando com os animais, com a água… converso com as árvores e com o vento.

– Conversa com os animais, árvores e vento? Isso tudo é muito estranho.

– Arthur… você é tão descrente que parece até mesmo o Rei Arthur, das lendas.

– Bem, talvez eu seja. Mas gosto de aprender e de fantasiar que seja possível, apesar de achar que nunca conhecerei Avalon ou alguma de suas sacerdotisas, ha ha ha!

Levei ele até a margem do Lago de Cristal. Era assim que eu chamava, pela água ser pura e cristalina e porque as rochas brilhavam de dia e de noite. A terra era fofa e macia e sempre me convidava a tirar os sapatos e afofá-la com as pontas dos dedos.

Eu cantava e os pássaros acompanhavam. O charchalhar das árvores em perfeita harmonia com meus pensamentos e minha voz. O vento soprou forte meus cabelos e meu vestido e comecei a dançar e cantar. Meu perfume se misturava ao cheiro mágico da floresta e Arthur assistia o espetáculo maravilhado.

Cantei em agradecimento a Eostre, aos espíritos da floresta, a Cernunnos – em respeito a Arthur, que agradeceu alegremente – a Cerridwen e a lua, que brilhava majestosamente. Arthur não falava e respirava baixo, sequer se mexia, com receio de atrapalhar a mágica que ali acontecia.

Terminados os agradecimentos, voltei para com Arthur. Os olhos brilhavam como a própria lua. Então ele segurou meu rosto com as duas mãos e me beijou. Ele me abraçava e me beijava. Pronta e entregue ao amor e com as bençãos dos Deuses, levei-o até uma cabana que desde criança, usava para observar o lago, os animais e a lua. Num ato de coragem, de entrega e segurança, me fiz mulher nos braços de Arthur.

continuará…

 

Glossário:

  • Beltane: Festival celta, ainda comemorado nos dias atuais, é um festival de fertilidade, simbolizando a união entre a energia feminina e a energia masculina. Em tempos remotos, a sexualidade era destaque nos rituais, mas em comemorações contemporâneas, a sensualidade humana entra em evidência. É comemorado com muita dança, flores, alegria e um grande banquete. Marca o início do verão e a morte do inverno, apesar de ser comemorado nas festas de Primavera, simboliza o florescer da vida e do amor.
  • Vannis: Significa “Florescer do Amanhecer” ou “Flor do Amanhecer”, “Flor da manhã”
  • Arthur: Significa nobre, generoso, grande urso generoso. Era nome de reis e referente a Lenda do Rei Arthur.
  • Ronei: Significa “Avermelhado”
  • Elfos, elfas: Criaturas belas e mágicas, das florestas, referentes a mitologia nórdica.
  • Var: Da Mitologia Nórdica, outro aspecto da Grande Mãe (A Grande Deusa), é a deusa dos contratos, dos juramentos e do casamento. Ela ouve os votos e os pactos feitos entre os homens e mulheres (esses pactos são chamados de varar) e se vinga daqueles que quebram esses votos.
  • Eostre: Da Mitologia Nórdica, Deusa da Fertilidade e do Renascimento, a primavera, lebres e ovos são seus símbolos. De seus cultos, originou-se a Páscoa (Páscoa em inglês Easter, semelhante a Eostre). É relacionada com a Aurora e depois, a luz crescente nas Primaveras, momento em que abençoa a Terra.
  • Avalon: Ilha lendária da Lenda de Arthur, famosa por suas maçãs inigualáveis. É a Terra dos Bem-aventurados, regida por uma sacerdotisa, Morgana da antiga religião, que tinha estreitos laços sanguínios com o Rei Arthur. Segundo as lendas, Arthur foi levado até Avalon para ser curado de suas feridas de guerra pelas sacerdotisas.
  • Cernunnos: Da religião Celta, Deus da Natureza e todas as coisas selvagens. Deus da virilidade,  animais, amor físico, guerreiros e comércios.
  • Cerridwen: Deusa da Natureza, da morte, do conhecimento, inspiração, magia, ciência, poesia e feitiços, sua imagem está relacionada a um caldeirão.


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6 respostas para “Em nome de Var

  1. Jessica disse:

    Uau! Só uma pergunta… Tá apaixonada? hauahuahuah 😛

    • L disse:

      Pela cultura e elementos celtas e nórdicos? Toda vida! Hahaha! Nem todas as histórias que eu crio são baseadas na minha vida, minha cara. Um elemento ou outro é facilmente identificável – como escrever sobre algo que não viveu e não sentiu? Contudo, espere a continuação 😉

  2. Aa disse:

    Onde acontece a história?

  3. Arthur Piovam disse:

    Não sei se posso dizer isso aqui… ou se devo… mas
    Pudim!
    (me senti uma criança quebrando uma regra agora!)

  4. Gianlucca villas disse:

    Emocionante… =´]

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