Confabulando Ilusões

O portal da alma, a voz do coração.

Silenciosa Lucidez

em 20/01/2011

– Aqui está bom? – perguntou o rapaz, ansioso para encontrar um lugar perfeitamente fora de riscos.
– Vamos ficar para descobrir. – respondeu, com um sorriso, a garota.
Ficaram ali sentados no corredor daquele celeiro vazio, próximos a janela, parcialmente escondidos de todo o restante. Jogaram as mochilas em um canto. Um lugar perfeito para um casal. Se fossem um casal.
Eduardo nunca entendera realmente seus sentimentos por Bárbara. Não sabia se a amava ou se alimentava uma amizade profunda e fora do comum. Mas sempre desejara estar ao lado dela, em todas as ocasiões.
– O amor é tão irônico. Chegando a ser uma ironia maldita. Nasce manso e silencioso, como uma manhã deliciosa. E quando menos se espera, transforma-se em uma noite fria e sombria. Maldita ironia.
Bárbara, que sempre fora amorosa, dona de um sorriso largo e belo, disse com tristeza na voz e lágrimas nos olhos o que para Eduardo, soou doloroso. O que quer que sentisse por Bárbara, sabia que naquele momento, não seria correspondido com mais do que uma simples amizade.-O que houve?
– Não quero mais amar.
– Tão de repente? Algum imbecil terminou com você?
– Não. Eu terminei.
– Então qual o motivo para tanta tristeza?
– Não quero mais amar.
Eduardo calou-se. Não pela falta de argumentos e dúvidas sobre o assunto, mas porque sabia que Bárbara não diria mais nada naquele momento. Resolveu calar-se e esperar pela amiga que agora, chorava feito uma criança. Uma criança perdida, a quem Eduardo desejava salvar.
– Não vale mais a pena. No fim, tudo será transformado em uma noite fria e sombria. Como eu já lhe disse antes. O paraíso bucólico transformado no seu próprio inferno. Um inferno pelo qual caminhará, sozinho, durante todo o tempo que dispor, com o diabo rindo da sua desgraça. Tudo porquê? Porque você amou. Amou, doou para o outro os seus sentimentos mais inocentes, puros. E agora, caminha sozinho por um caminho torturante. Isto terá fim? Terá?

Osol já se retirava, dando lugar para a escuridão, tornando as amargas palavras de Bárbara mais pesadas. “Estivemos aqui por horas”, pensou Eduardo, que já não sabia o que fazer para acalmar a amiga e se preocupava em voltar para casa.
– De tudo o que senti, de tudo o que vivi, você foi a melhor coisa que me aconteceu.
– Você também, minha pequena.
Bárbara sorriu e mergulhou nos braços de Eduardo. O rapaz não conteve o sorriso, esperançoso, de que aquele abraço apertado trouxesse o rosto de Bárbara mais próximo ao seu. E agora, já tinha uma direção para onde levar os sentimentos por Bárbara.
– Eu nunca vou deixar você abandonada na escuridão da noite. Você sempre será o meu paraíso bucólico.
Bárbara chorou com mais força, agora soluçava, em profundo desespero. A mão de Eduardo nos cabelos longos e encaracolados da moça e sua voz, grave, mas doce, cantando “Silent Lucidity” embalou Bárbara, trazendo-lhe a paz que a moça tanto ansiara.
Os dois permaneceram nesta cena por tempo suficiente para Bárbara recobrar as forças e cantar junto com ele. Olhou para o rosto sereno do amigo, que terminava a canção, com um largo sorriso no rosto.
– Cante mais uma vez, Edu. Por favor.
A moça pedia com voz manhosa, agora mais feliz. E o rapaz, com o peito agoniado, tinha certeza do que queria. Queria Bárbara para ele. Cantou mais uma vez, com mais suavidade. Bárbara, com um sorriso, virou-se para Eduardo, beijando-lhe carinhosamente o canto dos lábios, pedindo por um outro beijo.
Eduardo beijou Bárbara como se fosse a última coisa que faria em vida. Rendendo-se aos beijos e carícias, fizeram do celeiro o cenário para a entrega mútua do corpo e da alma. Toques, carinhos, risos. Agora eram um casal. Agora, mais do que nunca, faziam parte um do outro.

Agora, mais do que nunca, faziam parte um do outro.

O caminho para casa, agora, era cheio de paradas, beijos alegres e risadas gostosas. “É a minha pequena. Agora, é a minha pequena”, pensou Eduardo, embalado por um beijo carinhoso de Bárbara.

Remexendo na mochila, Bárbara pegou o bloco de anotações e escreveu um pequeno paragráfo. Colocou o pequeno papel nas mãos de Eduardo. O rapaz fez a mesma coisa e sabia exatamente o que escrever. O refrão de “Silent Lucidity”, que deixara Bárbara tão feliz. 

-Prometa que só vai ler amanhã de manhã.

– Eu prometo.
– E você, também.
Bárbara respondeu com um sorriso.
Na manhã seguinte, o sol parecia mais brilhante. A alegria batia no peito e a ansiedade por ver Bárbara novamente deixava-o agoniado. Precisava vê-la. Precisava dizer o quanto a amava. Precisava tomá-la para ele, fazê-la feliz. Precisava ser feliz ao lado de quem amava.
Após o café rápido, Eduardo foi à casa de Bárbara. A moça morava sozinha. sentiu-se aliviado por não ter que causar impressões estranhas por estar indo à casa de uma jovem em plena manhã. A mãe de Bárbara havia abandonado a filha. A depressão havia tomado conta da mãe após a triste separação. Os passos rápidos o fizeram chegar em menos tempo que o previsto. Bateu na porta e esperou ansioso. Não houve resposta. Bateu, novamente, chamando por Bárbara. Sem resposta. Por impulso, girou a maçaneta, talvez a porta estivesse aberta e ela estivesse na cozinha, como já aconteceu outras vezes.
Chamou por Bárbara, avisando que estava entrando. E não houve resposta novamente. O silêncio pertubador naquela casa o deixava assombrado. Desejou ver Bárbara o mais rápido possível. Sonhava acordado com Bárbara. Queria levá-la ao teatro, alugar filmes e ver com ela, dar-lhe presentes, visualizando o sorriso largo e um abraço forte pela surpresa. Sonhava com Bárbara em todas as situações mais românticas que conhecia e que os filmes já mostraram.
Abriu a porta do quarto de Bárbara com cuidado, avisando de que ia entrar. Encontrou-a dormindo. Ficou um tempo observando-a. Vendo como era linda a moça que agora, era dona dos seus pensamentos e de suas razões.
Foi de encontro a moça. Ela estava gelada, com o rosto suavemente roxo. Desesperou-se. Sacudiu o quanto pôde, ela não abria os olhos. Ligou para a emergência, chorando como criança e ficou ali, ao lado dela. Ela estava morta. A mulher que ele amava, estava morta. Aquela, que jamais desejou ficar longe, que sonhou tanto em estar junto. Morta.
Segurou suas mãos, em meio a lágrimas de desespero e encontrou um papel entre as mãos da moça. O papel, que havia lhe entregado na noite anterior, jazia junto com seu corpo.
Lembrou-se do papel que a moça havia entregado também. A vontade de rever seu amor era tão grande que havia esquecido de ler o papel assim que acordara. Tirou o papel do bolso e leu. Gritou. Não se conformava.
A letra de Bárbara era linda, como ela. Beijou o papel. Ajoelhado, do lado da cama, do lado de sua amada, leu o pequeno parágrafo:
“Meu paraíso bucólico. Você. A noite irá embora, a vida irá embora, mas você será eterno, no meu coração, na minha mente, na minha alma. Em tudo o que existe ao meu redor. Obrigada por ter me salvado da escuridão. Estarei esperando por você.”
Uma despedida. Ela havia escrito uma despedida. Uma despedida eterna.

A manhã deliciosa transformou-se em noite. Fria e sombria. Triste. A alegria tornou-se desespero, o paraíso, em inferno.
Acariciou-lhe o rosto. Tudo havia acabado. Sua vida acabou-se ali, com a morte de Bárbara.
– I am smiling next to you, in Silent Lucidity.
Achou ter visto um sorriso na face gelada de Bárbara. Foi a última coisa que conseguiu dizer.

Desejou, ali, nunca mais amar novamente.

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4 respostas para “Silenciosa Lucidez

  1. Rafaela disse:

    Gostei … apesar de gostar dos finais felizes.
    De triste já basta a vida!

  2. Milla Novikov disse:

    Triste Mary, mas muito bem escrito, como esperava de você. Parabéns! Adorei o conto. Espero ansiosamente pelo próximo :3

  3. Evan Henrique disse:

    seria muito gay se eu dissesse que arrepiei CABULOSAMENTE qdo acabei der ler aquele último conto do teu blog?

  4. Bárbara Capelin disse:

    Lindo e íntimo…como só você sabe fazer.
    =´]

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